terça-feira, 31 de março de 2015

trinta e um de março (ou number one)

[...]

Repouso e, mansa, te escrevo.
O som do pincel riscando o guarda-roupa
é quase tão pesado quanto os gritos em re-play
sobre casas pequenas,
varandas
e um,
dois,
três,
quatro,
cinco filhos.

Dezenove anos depois,
você ainda está aqui.

Ainda e depois (ou talvez) por tudo,
imagens nítidas de um casal ocioso,
nos seus quarenta ou cinquenta anos,
bêbados na sala, cantarolando "ooh, it makes me wonder"
e estourando as caixas de som restantes,
(uma vez que a grande maioria
já teria se perdido nas suas imperdíveis performances de sábado à tarde)
conseguem se formar em minha cabeça
em meio ao caos, a cólera, em meio às mortes anunciadas no telejornal
e em tudo que nos entregamos falhos e fugitivos.

É óbvio que tais imagens eram mais frequentes
antes d'eu me entregar ao hábito de lamber bocetas
(não que isso fosse fato determinante,
uma vez que poderíamos fazê-lo juntos)
e você se tornar um babaca desses
que só pensam em foder quem estiver disposta a ser fodida
por teu pau rosa que eu conheço todas as veias,
todos os vincos,
todos os pelos
ou pelas mãos que bens sabes ágeis.

Atípicos, ainda funcionaríamos.

Mas não posso nunca exigir a ti de qualquer maneira,
seja ela qual for,
e juro aceitar as partes dispostas a mim,
desde que seja pelo resto da vida.
(sim, essa parte do combinado sempre esteve de pé)
e ainda que nunca cheguemos às cinco crias,
não abro mão da sua presença constante em mim.
Até porque alguém precisa massagear minhas pernas
e me dar pudim, mesmo que isso me dê gases terríveis por dois dias
e ainda preciso das tuas mãos para acalentar.

No meio dessas coisas todas que já me perdi
(você sabe do quão fácil me perco)
queria mesmo era te dizer que você virou um homem.
Tão fodido quanto eu,
tão perdido quanto eu.
Mas um homem.
Sobreviventes do apocalipse dos anos dois mil,
farroupilhos,
chorume em frasco de cristal.

Sem clichês e sem poetizar,
da forma mais crua e verdadeira que você
e só você conhece,
te envio todo o meu axé.
Te abraço quente feito a vodca pura
que costumávamos brindar as mal-sucedidas
entrevistas de emprego.

Com todo o terno
eterno
e imundo amor,
de quem mais te gosta nesse mundo.





quinta-feira, 12 de março de 2015

doze de março (ou Maria)

Desaprendi a escrever sobre faltas.
Graças a ela.
Quando dei por mim,
todos os resquícios
os mínimos resquícios;
chinelo guardado
cd pausado
e até mesmo a sonoridade
do que se fazia eco
havia desaparecido.
eram necessários
grandes esforços
para relembrar o que
que se manteve
terrivelmente encruado
em cada parede de memória
que, pouco a pouco,
foram re-enfeitadas
pelas cores de Maria.
não havia dor;
ainda que saibamos
que a própria havia sido
fator determinante
nas mensagens trocadas
em alta madrugada,
mas se havia um risco
que devesse correr,
apostei no de viver
a serenidade ao lado dela.
os pontos cardeais
em suas costas
me guiam à paz
que busquei em outros astrais.
e prometo:
de lá não saio.

dezenove de agosto.

amei Beatriz como não amava há décadas. amei no sebo na rua chile  nas pedras da gamboa  amei no sétimo andar do prédio que não me ...