quinta-feira, 14 de julho de 2016

quatorze de junho (ou temporais de nós)

Venho tentando lhe escrever há uma semana
me perdoe a demora nas coisas que não são nossas mas as coisas nossas parecem se esvair no nublado acima de nós 
os pensamentos emaranhados e todo aquele cinza que sai da minha cabeça 
da sua cabeça 
se encontram no ar, dançando 
e voltam trazendo pra gente um pouco mais da confusão do outro. 
Tento lhe escrever pra falar das coisas que venho percebendo e não vou conseguir falar se você continuar me olhando assim inquietamente 
relaxa, dá um trago
isso
senta aí e me deixa terminar a porra que eu to tentando fazer
nao seja isso
não seja essa pessoa que tenta interferir na confusão do outro
só senta e recebe tudo isso que eu to tentando falar 
que eu to tentando te dar 
que eu to tentando fazer com que você entenda e deixe de ser essa coisa
não sei que coisa é essa nem vou saber se você ficar me interrompendo, cara 
eu só queria te falar que daqui até marte 
você tem a mim de todos os jeitos 
porque cada pedaço do que eu sou respira o que você é 
e cada célula cada poro todas as minhas cicatrizes 
são enfeites pro que viria a ser sua casa 
e que tudo isso cai, cara
vem chuva por aí você viu o noticiário?
o cinza tá voltando 
o frio tá voltando 
e nosso chuveiro quebrou de novo 
você devia assistir mais o noticiário sabia?
eu assisti e depois dos fatos sobre bombas 
sim as mesmas bombas que caem incessantemente 
falaram da chuva e você sabe o que acontece
as ruas alagadas o transito parado os arrastões na calçada 
e as casas 
as casas que caem 
as casas que caem 
e a gente se junta e segura a parede e manda o repórter se foder porque a nossa casa ta caindo e a gente só precisa de mais um minuto 
so mais um minuto
e as mãos, 
as minhas ao lado das suas 
segurando aquilo que a gente pariu feito filho nascido de oito meses
nosso lance sempre foi na raça
mas nosso lance também foi 
também é 
sobre aquilo que a gente traz no peito
aquele quentinho no coração
eu consigo te ouvir falar assim de canto sorrindo
os olhinhos fechados 
apertando minha mão e repetindo 
o quentinho no coração
o quentinho na casa que não cai porque nosso amor é teimoso
e teimosia baby
é com a gente mesmo


dezenove de agosto.

amei Beatriz como não amava há décadas. amei no sebo na rua chile  nas pedras da gamboa  amei no sétimo andar do prédio que não me ...