Meu bem,
Tenho pintado estrelas no céu de nossa casa.
Sempre leio sobre pássaros azuis e mares abertos,
a noite fugaz corrompe as entrelinhas que escrevo
sob a luz cada vez mais fraca
que entra pela janela semiaberta da cozinha.
Do outro lado da parede,
vozes estridentes cantam parabéns
a alguém que jamais conheci.
Sigo.
Agendo consultas e masco um chiclete
enquanto gosto amargo de minha boca
desce por minha garganta,
saliva densa encorpada por todas as coisas
que habitam em mim e nunca saem porque essa voz,
esse peito,
esse caos,
quase tudo que sou ou me tornei,
cai em armadilhas não tão inteligentes como aquelas que assistimos no seriado
todas as noites,
mas frágeis,
mentiras contadas por uma mulher de vermelho
que habita meus sonhos e canta,
canta,
canta pra mim.
Escrevo porque não tenho uma arma.
Os pontos luminosos e intocáveis em meu teto,
embaralhados a um nome que nunca deixou de existir,
seguem a métrica da sua poesia.
Se eu te contasse sobre meus medos,
sobre os caciques e crianças que me dizem coisas todas as noites,
se eu abrisse um mar em minha pele
e tingisse nela todas cores da tua voz
e entoasse os pontos ordenados por meu orixá,
se eu gritasse e caísse no abismo da sua ausência
ou seus segredos não me atassem os punhos,
se em tudo que vai
e em tudo que esvai,
o beco sem saída
pro qual você me puxa sem sequer notar
e sem sequer notar
me condena ao exílio de nós,
se em tudo ecoasse sua voz
(farol de estrelas da noite que se inclina)
em cantigas antigas
sobre o amor de antigos
o que se faz perpétuo se desfaria em átomos invisíveis
e recriaria o que se perde em cada recuar cauteloso,
o quadro renascentista perfeitamente caótico
exposto e admirado por velhos bêbados, viúvas
e jovens embriagados de vinho barato
cantando aquela canção
que costumava passar em nosso rádio.
Saudade são sete letras
ou sete cores de tua retina?
O dia termina e eu
volto pra onde nunca saí.
Do sussurro que nos cala,
o latejar de viver é o sopro dos teus lábios
que inteiro,
aos poucos, permanece.
segunda-feira, 24 de abril de 2017
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