quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sobre distâncias e casacos esquecidos.


"Esqueci minha boca no teu corpo
Pensei que isso te faria meu
Usei de artifícios, gastei meus truques
Depois, quem escapou fui eu"



Apertava a bolsa como se como se segurasse um mundo de possibilidades entre às mãos. 
O telefonema, sua voz indiferente e o recado quase não dado interromperam o chá das cinco e me trouxeram de volta ao velho prédio, à velha escada, pro tapete diante tua porta e aquela maldita sensação de quem não sabe como agir. Era como se estivesse à beira de um penhasco e uma matilha de lobos famintos atrás de mim. Entre morrer ou morrer, só me cabia escolher a forma mais digna.
Quem diria que um casaco esquecido atrás da porta do quarto me colocaria depois de meses, à tua frente. Abençoadas sejam essas falhas da memória, que mais parecem medidas preventivas, tratando de provocar encontros futuros. O fato é que estava ali, na eternidade entre o tocar da campainha e o você aparecer, abrir a porta de camisola e reclamar do meu cigarro. Me convidou à entrar como quem convida o montador de móveis. 
- Senta, vou buscar teu casaco. 
Não sentei.
Ainda à porta, olhei em volta e percebi que tudo ainda estava no mesmo lugar. Ri de deboche pensando  o quanto era irônico o apartamento permanecer tão igual, enquanto as coisas entre nós estavam completamente diferentes. Quis entrar, quebrar suas coisas, te xingar e apagar o cigarro na tua cara. Vomitar minha dor no teu tapete, cuspir verdade no teu rosto e não me importar em limpá-lo depois. Mas... Te ver voltando, amarrando o cabelo completamente indiferente à minha presença, fez meu estômago despencar com o peso da consciência de que jamais voltaríamos a ser como antes.
Peguei o casaco e te vi fechar a porta sem se importar se metade mim permanecia lá dentro.

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