segunda-feira, 13 de outubro de 2014

One step closer.

Ela havia deixado o bilhete lhe escapar pela lateral da bolsa. De novo.
Rabiscado em caneta rosa, o final da última conversa; palpites sobre o tempo, sobre faltas e o último episódio da série que acompanharam por sete longas temporadas.
Em cada janela aberta, pequenas portas se fechavam e inúteis se tornavam os mecanismos para mantê-las abertas por mais do que cinco minutos.
Ela sabia. E ignorava.
Eu já havia tentado, por diversas vezes, fazer um traço e escrever por cima. Riscar qualquer coisa como enxerga-essas-minhas-súplicas, mas desconfio que a permanência dos lembretes na cama, na pele, nas caixas cuidadosamente guardadas e em todos os detalhes, os dolorosos detalhes, onde todas essas miudezas estavam impregnadas, os altares que, quisera, fossem particulares, e ainda que tentasse, eu não conseguiria cobrir.
E em tudo isso nos perdíamos.
Em tudo isso ela me perdia.
Sete xícaras de café amargo na tentativa de entender se não havia clareza em tudo que já havia sido dito. Em tudo que havia sido pe(r)dido. Canso e me repito "let it be". Quero você com a leveza de um pássaro, Caetano sussurra em meu ouvido esquerdo. E rezo para que as minhas desistências de ti não se tornem cada vez mais claras. Água mole em pedra dura, muitas vezes seca o riacho sem ao menos ter rachado a pedra.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Dubai.

I

A cidade silenciou 
enquanto nós ríamos.
A Estrela se encheu, vaidosa, 
enquanto Maria, 
mingante, 
se aninhou em meus braços. 

As luzes das casas, 
dos postes e dos carros, 
o seio esquerdo banhado à lua 
e nosso reflexos - confusos - 
refletidos em cada
canto do quarto.

Em cada
canto de mim.

II 

Você silenciou, Maria.

E depois chorou 
duas ou três súplicas,
teus pedidos desesperados
suas urgências infantis
e minha vontade incessante
de te dar colo
outra vez sobressaiu.

Você gritou, Maria.

E todos os
duzentos e dezenove ouvidos
ao nosso redor
testemunharam em segredo 
às promessas que fazíamos 
com os gozos
ainda quentes e recém provados.

Eu acreditei, Maria.

E todos os planos não feitos
agora estampavam cartazes
e out-doors na avenida principal. 

A cidade adormeceu, Maria.

E você amanheceu amor
irradiado em mim.


onze de junho
de quando você
dormiu ao meu lado.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Sobre avisos que devem ser levados a sérios.

Depois de tanto insistir, 
Maria conseguiu me mandar embora. 
Sentada em minha frente, 
acendendo um cigarro no outro. 
A boca que abria mas não me dizia nada. 
Não me dizia na-da. 
Nada do que foi,
do que teria sido,
e o tudo que quase chegou a ser;
mas se perdeu na ida
e lembrou o caminho de volta.
À força.
E permanecia sentada,
evitando meus olhos,
tentando quebrar distancias
que ela mesma havia imposto,e,
quando a boca,
cumprindo seu papel,
vomitava todas aquelas coisas
que eu já não acreditava,
todas convertidas em
pedidos de "fica",
seus braços me empurravam pra longe
confirmando o que o guarda-roupa
havia me gritado
enquanto eu me fazia de surda
porque meu desejo
sempre foi ficar.
E fui ficando, assim,
me encaixando nas brechas
das suas saias
até que toda ela;
os braços, abraços,
vestidos, portas e guardas
se fecharam pra mim.

Então eu fui.

(embora)



[quatro de junho 
de quando você nos traiu 
pela primeira vez.]

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Café com ervas.

Maria chegou e outra vez trouxe consigo seu universo de particularidades, mas dessa vez se deteve demorada e mudou o nosso tempo verbal. De pretérito-quase-perfeito à "present continuous". 
Dois meses depois daquele cigarro, sua presença havia se tornado rotineira assim como minhas visitas à sua cama. Maria era uma amante excepcional. Cama, mesa e banho, e com a mesma maestria em que me fazia cada vez mais tua, me trazia co-mi-da na cama enquanto eu, sorrateira, lhe escondia bilhetes pelos cantos do quarto. 
Janela entreaberta e incenso de café. 
Já havíamos nos tido outras vezes cúmplices, outras tantas amantes - algumas mesmo nessa cama de onde escrevo devagar, ora respirando o cheiro que ela havia deixado na minha pele, ora achando graça das marcas feitas com a boca - mas hoje, especialmente hoje, senti que me perdi num caminho sem volta entre as curvas dos seus quadris e seus olhos de Capitu. E sem muito (ou quase nada) ponderar, depois do aviso tímido na cabeceira da cama, assino minha rendição: 

Serás o meu amor. 
Serás, amor, a minha paz.

terça-feira, 6 de maio de 2014

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Maria chegava e todos notavam. Era sempre assim e ela deveria estar acostumada. Sentava ao meu lado e me pedia um cigarro.
- Fogo?
"Pra você, sempre tive" pensava eu com meus botões.
Maria tinha dezoito ou dezenove anos e minha cabeça de vinte e dois tentava entender que diabo de feitiço ela tinha naquele rebolado de mulher-que-te-devora pra causar tamanha comoção em qualquer um que a visse chegando em carnes, ossos e cabelos dentro da calça vermelha que - por Deus - eu tirava em pensamento.
Maria sempre foi mulher demais para pertencer a alguém; era do mundo, e, acima de tudo, de si própria.
Colecionava apaixonados.
Entre um trago e outro, me olhava de canto e elogiava meu vestido. "Obrigada", respondia, mas ela já não me dava bola, tragava fundo enquanto eu - mais menina do que ela era mulher - desejava com todas as forças, ser aquele cigarro.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Sobre noites intermináveis.

Sonhei contigo a noite inteira 
e foram sonhos de paixão desesperada. 

Acordei sem ar infinitas vezes 
e em todas elas repudiava o amor 
que -indevidamente- 
não me foi dado. 

Amaldiçoei tua casa, 
teus pares, 
tuas gerações futuras, 
passadas... 

Te desejei desgraças: 
doenças, 
fracasso, 
sumiços na Poupança. 

Te fadei à solidão. 
Quis tua morte.

Maldisse nosso encontro,
desejei o reencontro
que é pra expulsar,
excomungar,
me libertar
pra que nada mais me toque
pra que nada mais me lembre
pra que nada mais me faça sentir você.


...

"mas se tu me escrevesse
uma carta me pedindo pra voltar;
[...] amor da minha vida,
eu iria e nunca mais ia te deixar."

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sobre ela:

Me pega
me vira
avessa
e invade

Teus seios
meus seios
tua boca
na minha

A coxa
que aperta
esfrega
e lambuza

De costas
bem fundo
"não pára!"
sou tua

Me dá
teu orgasmo
gemido abafado
a droga pós-sexo
e carinho sem fim.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Eu,
caderno
de
desenho,
coleciono
os
traços
que
você
deixou.

Você,
conhecedor
das
minhas
páginas
em
branco,
nunca
mais
me
aquarelou.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

As pessoas não param de chegar. 
O burburinho dos reencontros 
é teu canto de despedida.
Das presenças incontáveis,
nos tornamos partida.
A chuva na rodoviária me lembra você.
Estou parti(n)do
mas te busco, Helena,
em cada estação. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Pensei em te escrever, Helena. Mas era tudo tão remoto dentro-e-fora de mim  e os cadernos não existiam, então deixei que as estrelas (mais cadentes que nós) levassem meu beijo e minha ternura em forma de abraço. 

dezenove de agosto.

amei Beatriz como não amava há décadas. amei no sebo na rua chile  nas pedras da gamboa  amei no sétimo andar do prédio que não me ...