Na tarde de quinta-feira quando pela última vez ouvi o som dos seus chinelos batendo nos degraus dos ônibus, a rodoviária inteira pareceu entoar nosso canto de despedida.
"Mamãe Oxum te livre de todo mal", te ouvi dizer da janela que se afastava lenta enquanto lenços sacudiam em homenagem àqueles que não saberiam retornar.
Sua malinha de memórias ainda estava em meu quarto. Ao certo fariam companhia aos copos de vodca, os cinzeiros, os discos de Bethânia e às bitucas de cigarro que formavam teu nome em cima da penteadeira.
Na volta pra casa, refiz os caminhos que um dia foram nossos.
"O centro da cidade ainda respira teu nome", pensei.
Nosso caso sempre esteve em corda-bamba, você sabe. Tua lua, meu Sol, nossas conjunturas nunca foram favoráveis. O que houve entre nós foi teimosia e agora ando com uma mania de dizer que nossos opostos nunca se atraíram. Você ria disso, lembra? E agora? Qual o motivo do teu riso?
Meu corpo desabou inerte no buraco negro que você deixou e em meio aos gritos e aos cortes, o que corre em minhas veias voltou a ser teu.
Os golpes que me atingem, atingem também a tua paz?
Nosso caos sempre esteve suspenso no ar, minha doce aurora.
Me levanto por ti
e caio por nós.
E volto a cair.
Mas o sangue que escorre
em minha boca é teu,
Helena.
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