terça-feira, 10 de outubro de 2017

dez de outubro.

Tua mão de seda repousada em minha coxa
tem o peso de mil guerrilhas.
Disfarço.
Reparo teu rosto,
os vincos que circundam teus lábios,
mas desvio subitamente os olhos
desses outros que me enxergam para além do que sou.
Protejo no fundo de minhas entranhas o bicho que come minha carne
e me jogo bruscamente na poça rala de tudo aquilo que me resta
e insisto em manter imaculado.
As pequenas esperanças depositadas nesse pedaço de água suja do qual não saio,
talvez habituada aos detritos,
talvez submersa em medos infantis,
na insegurança do amor que almejo mas não busco,
no abuso,
na solidão onde eu e o verme
permanecermos cada vez mais íntimos
e juntos afastamos todas as possibilidades disso que chamamos de amor
e nos acorrentamos
tão severa e violentamente
a ponto de não permitir que a luz do castanho dos teus olhos alcance o que me resta
e o que mantenho guardado dentro
dessa carne podre
desse corpo pesado
desses olhos calejados
e corro pra longe da luz,
do castanho,
dos ombros,
do amor que me oferece em xícaras brancas
e cuspo para que nem mesmo tu sejas capaz de beber
e então recolha lentamente a louça
enquanto permaneço nadando em círculos
em tudo aquilo que não se esvai.

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