quinta-feira, 1 de setembro de 2016

primeiro de agosto.

quando você passa, leoa, 
meu coração se joga 
e te espia por debaixo da saia. 
com teu aval. 
teu cheiro no ar é feitiço lançado 
pra me deixar em claro por mais uma noite. 
o castanho de tua juba, 
os riscos de tua pele, 
tua boca enfeitada e teus seios, 
luas cheias, 
iluminando os caminhos do corpo cor de ouro que sigo sem pestanejar. 

te espreito nas esquinas 

por onde você passa, 
deixando os pedaços do meu desejo 
pra que você, 
quem sabe, 
os encontre e os traga de volta pra minha cama.  

outra vez.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

dezenove de agosto

Num fim de tarde no Campo Grande, esperando o café na padaria
que conhece todos os nossos segredos, 
teu nome ecoou entre as xícaras e os pratos vazios.
Meus ouvidos souberam de ti; 
boatos, burburinhos, as velhas histórias
onde teu nome imperava sobre todos os outros. 
Me disseram que você havia engordado, pintado o cabelo, feito tatuagens 
mas que teus olhos continuavam negros como a noite em que nos encontramos pela primeira vez.
Quis te ligar pra falar de mim, dos acidentes, 
problemas, problemas, problemas, 
você adorava dizer que eu os buscava com o tesão que nunca tive por ti.
Pobre engano.
Quis ler as revistas que você esqueceu 
e que há meses habitavam em minha mochila, cantar as partituras no tom de sua voz e depois levá-las em sua casa 
só por pretexto pra te olhar de perto, 
olho no olho, cheiro com cheiro, 
juntar minha angústia e sua dor, ouvir Gal até você me mandar trocar o vinil.
As noites passam mais devagar quando não tenho teu nome
pra me cobrir os olhos. 
Os dias passam mais rápido quando não tenho em mim o peso de ter você.
Entre um trago e outro do cigarro que ainda tento me adaptar, 
amaldiçoando o novo preço do Malrboro, 
busco consolo pensando que não ficamos juntas 
porque nosso caso sempre foi maior que tudo isso,
bento a ponto de não suportar nossa vaidosa pequenez.
Pecado não foi te querer, Beatriz.
Pecado foi ter ido embora.

domingo, 7 de agosto de 2016

sete de agosto (ou flores vermelhas, vênus, bônus)


o tramal é enfiado goela abaixo
de sete em sete horas.

sete horas
sete nomes
sete vezes

certa vez me disseram
que sete anos
são necessários para a renovação
de todas as células do nosso corpo.

sete planetas ao redor
do meu e do seu
se encarando no meio do espaço

sete conspirações

sete pecados capitais

sete chances:
cinco já foram.

sigo a sorte,
jogo os dados.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

quatorze de junho (ou temporais de nós)

Venho tentando lhe escrever há uma semana
me perdoe a demora nas coisas que não são nossas mas as coisas nossas parecem se esvair no nublado acima de nós 
os pensamentos emaranhados e todo aquele cinza que sai da minha cabeça 
da sua cabeça 
se encontram no ar, dançando 
e voltam trazendo pra gente um pouco mais da confusão do outro. 
Tento lhe escrever pra falar das coisas que venho percebendo e não vou conseguir falar se você continuar me olhando assim inquietamente 
relaxa, dá um trago
isso
senta aí e me deixa terminar a porra que eu to tentando fazer
nao seja isso
não seja essa pessoa que tenta interferir na confusão do outro
só senta e recebe tudo isso que eu to tentando falar 
que eu to tentando te dar 
que eu to tentando fazer com que você entenda e deixe de ser essa coisa
não sei que coisa é essa nem vou saber se você ficar me interrompendo, cara 
eu só queria te falar que daqui até marte 
você tem a mim de todos os jeitos 
porque cada pedaço do que eu sou respira o que você é 
e cada célula cada poro todas as minhas cicatrizes 
são enfeites pro que viria a ser sua casa 
e que tudo isso cai, cara
vem chuva por aí você viu o noticiário?
o cinza tá voltando 
o frio tá voltando 
e nosso chuveiro quebrou de novo 
você devia assistir mais o noticiário sabia?
eu assisti e depois dos fatos sobre bombas 
sim as mesmas bombas que caem incessantemente 
falaram da chuva e você sabe o que acontece
as ruas alagadas o transito parado os arrastões na calçada 
e as casas 
as casas que caem 
as casas que caem 
e a gente se junta e segura a parede e manda o repórter se foder porque a nossa casa ta caindo e a gente só precisa de mais um minuto 
so mais um minuto
e as mãos, 
as minhas ao lado das suas 
segurando aquilo que a gente pariu feito filho nascido de oito meses
nosso lance sempre foi na raça
mas nosso lance também foi 
também é 
sobre aquilo que a gente traz no peito
aquele quentinho no coração
eu consigo te ouvir falar assim de canto sorrindo
os olhinhos fechados 
apertando minha mão e repetindo 
o quentinho no coração
o quentinho na casa que não cai porque nosso amor é teimoso
e teimosia baby
é com a gente mesmo


segunda-feira, 30 de maio de 2016

trinta de maio


Na tarde de quinta-feira quando pela última vez ouvi o som dos seus chinelos batendo nos degraus dos ônibus, a rodoviária inteira pareceu entoar nosso canto de despedida.
"Mamãe Oxum te livre de todo mal", te ouvi dizer da janela que se afastava lenta enquanto lenços sacudiam em homenagem àqueles que não saberiam retornar.
Sua malinha de memórias ainda estava em meu quarto. Ao certo fariam companhia aos copos de vodca, os cinzeiros, os discos de Bethânia e às bitucas de cigarro que formavam teu nome em cima da penteadeira.

Na volta pra casa, refiz os caminhos que um dia foram nossos.
"O centro da cidade ainda respira teu nome", pensei.

Nosso caso sempre esteve em corda-bamba, você sabe. Tua lua, meu Sol, nossas conjunturas nunca foram favoráveis. O que houve entre nós foi teimosia e agora ando com uma mania de dizer que nossos opostos nunca se atraíram. Você ria disso, lembra? E agora? Qual o motivo do teu riso?

Meu corpo desabou inerte no buraco negro que você deixou e em meio aos gritos e aos cortes, o que corre em minhas veias voltou a ser teu.

Os golpes que me atingem, atingem também a tua paz?

Nosso caos sempre esteve suspenso no ar, minha doce aurora.

Me levanto por ti
e caio por nós.
E volto a cair.

Mas o sangue que escorre
em minha boca é teu,
Helena.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

dezoito de abril

minha boca borrada em batom 
te sussurra nos becos do dois de julho
"beatriz"
me ouvem chamar
os velhos
as putas
os mendigos
"beatriz"
os donos dos botecos
os garis da meia-noite
o vendedor de cocaína
"beatriz"
e teu nome cortado
entre um gole e outro
a bebida quente
entre um trago e outro
e teu nome em espirais
"beatriz"
a cabeça virada
o grito ecoado
a paixão rasgada
teu nome em neon
"beatriz"
pichado no muro
riscado em teu carro
no meio do palco
começa o teu show;

concentro-me em ti;

clandestinos
nossos olhos ainda se encontram
nos becos escuros
da nossa cidade.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

onze de abril

os carros percorrem o caminho
no qual chorei nossa primeira morte
e ressuscito outra vez
três dias após o temporal
que devastou nossa cidade.

com quantas tragédias
se faz bom noticiário?

por vinte e uma luas
atravessei o deserto imposto em nós
e desabei, falha, no inicialmente proposto
devastando tua carne
desonrando teu nome
cuspindo em teu prato
negligenciando por escudo
te deixando,
pedaço por pedaço,
em cada esquina
onde não paramos
para nos abrigar da chuva

são nessas esquinas que te vejo
e que te espreito
e que te sigo
e que te roubo
e que te mato
noite após noite
para depois recompor, em fé,
os pilares que nos sustentam
e que me fazem voltar em nós,
longe dos carros
das chuvas
das esquinas
e te abrigar outra vez
metida em meus cabelos
no amor
que ainda
e sempre
lhe cabe.

dezenove de agosto.

amei Beatriz como não amava há décadas. amei no sebo na rua chile  nas pedras da gamboa  amei no sétimo andar do prédio que não me ...